Roseana Sarney: “gostaria que começassem a respeitar o meu nome. A família é uma coisa. A Roseana é outra”

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Aos 88 anos, o ex-senador José Sarney investe pesado nestas eleições. Depois de quase 28 anos com domicílio eleitoral no Amapá, voltou a ser eleitor do Maranhão no início do ano. Sua mansão no bairro Calhau, em São Luís, cujos reflexos do abandono nos últimos anos estão nos muros mal pintados, voltou a ser ponto de encontro do ex-presidente com líderes e empresários. Segundo relatos, Sarney não era visto por tanto tempo no Maranhão havia anos. Em sua coluna semanal no jornal Estado do Maranhão, de sua propriedade, reforçou os ataques a Dino.
Com a máquina do governo estadual nas mãos, Flávio Dino tornou a vida dos Sarneys mais difícil. Ele chega à candidatura à reeleição com o apoio de 16 partidos, sete a mais do que tinha há quatro anos. Sarney viu seu grupo desmanchar. A quantidade de partidos na chapa de Roseana minguou para seis. Em 2014, Lobão Filho, candidato do grupo na disputa contra Dino, reunia 18 legendas.
Para tentar conter a debandada, Sarney procurou presidentes nacionais de partidos que fecharam com Flávio Dino. Foi a Ciro Nogueira (PI), do PP. Procurou ACM Neto (BA), do DEM. Segundo políticos do DEM maranhense, Sarney cobrou do prefeito de Salvador a promessa de seu avô, Antonio Carlos Magalhães, de eterna aliança entre o MDB e o então PFL no estado. Depois da cobrança, de acordo com seus correligionários, ACM Neto comentou: “Então tá. Pede para o meu avô falar comigo”. O avô faleceu em 2007. ACM Neto não respondeu a ÉPOCA.
Na tentativa de se manter no poder, famílias tradicionais na política do Maranhão pularam para o barco de Dino, que aparece em primeiro lugar nas pesquisas de institutos locais, com chance de vitória em primeiro turno. É o caso de André Fufuca (PP), segundo vice-presidente da Câmara, que faz campanha com a foto do governador. Prefeito de Alto Alegre do Pindaré, Fufuca Dantas, pai do deputado, foi aliado de Sarney por anos. Gerações mais antigas também desembarcaram. É o caso do ex-ministro do Turismo Gastão Vieira. Em atrito com os senadores do estado, ele deixou o MDB rumo ao PROS e, agora, pede votos para deputado federal na chapa de Dino.
Com a chapa esvaziada, Roseana Sarney tem passado aperto na campanha. Em um dos primeiros eventos depois da formalização de sua candidatura, ela se atrasou em quase três horas para chegar ao bairro Anjos da Guarda, na periferia de São Luís, onde a família acreditava conservar força. O burburinho era que a equipe da ex-governadora segurava a chegada dela com a expectativa de o local lotar. Não adiantou. Com uma plateia de cerca de 300 pessoas, o vazio do fundo do galpão enquanto a ex-governadora discursava era evidente. A equipe de Roseana culpou a falta de dinheiro para a eleição e a “desorganização típica de início de campanha”.
Na chapa, Roseana carrega figuras conhecidas do eleitorado maranhense. Os candidatos a senador são Sarney Filho (PV), irmão dela, e o senador Edison Lobão (MDB), que tem como suplente o próprio filho Edison Lobão Filho. Os adversários na chapa de Dino, Weverton Rocha (PDT) e Eliziane Gama (PPS), sonham em derrotar a dupla com o discurso de que representam a nova política, contra uma “chapa centenária”. Em resposta, Lobão e Sarney Filho tentam pregar que a “experiência faz a diferença”.
Alternando o comando entre três famílias — Sarney, Murad e Lobão —, o grupo não conseguiu fazer a transição política para novos nomes e virou refém de si mesmo. Roseana resistia a disputar o governo. Só foi convencida depois de apelos do pai, que a apontava como única alternativa entre os aliados para garantir a sobrevivência do grupo.
Questionada sobre a tentativa da família Sarney de voltar ao poder, Roseana reclama do que chama de “preconceito” contra o sobrenome que carrega. “Tenho nome e sobrenome. Gostaria que começassem a respeitar o meu nome, não a família. A família é uma coisa. A Roseana é outra”, disse.
Em comum, Dino e Roseana têm levado o nome do ex-presidente Lula para os eventos da campanha. Em uma caminhada pela Raposa, município da região metropolitana de São Luís, o público se empolgou quando um dos aliados de Dino gritou “Lula livre”. O mesmo ocorreu em Anjos da Guarda, quando Roseana disse que seu candidato à Presidência é Lula. Em mais uma derrota para ela, o vice do ex-presidente, Fernando Haddad, que deverá ocupar o lugar do petista na disputa, gravou vídeo em que reforça que Dino é o candidato de Lula no estado.
Para o governador, o grupo Sarney ainda apresentará surpresas na campanha. “Quando entro em campanha contra eles, sempre estou preparado. Essa (a inelegibilidade) é a primeira tentativa de muitas que virão”, disse. Em termos de ações, a disputa promete ser acirrada. Um aliado de Dino entrou com pedido de impugnação da candidatura de Roseana, em que ela é acusada de ser sócia de empresas com contratos com o poder público nos seis meses anteriores às eleições.
Dino não pode ser chamado de desprevenido. Cunhada de Sarney, a desembargadora Nelma Sarney seria, pelo critério de antiguidade, eleita presidente do Tribunal de Justiça do estado no ano passado. Quebrando a tradição, os colegas elegeram José Joaquim Figueiredo dos Anjos, numa derrota do clã Sarney no Judiciário, onde tradicionalmente tem grande influência. O governador negou ingerência em outros Poderes, mas a família atribuiu a perda à forte atuação de Dino.

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